Na semana passada, enquanto montava acampamento próximo à crista de uma serra onde a mata atlântica começa a ceder espaço para campos de altitude, vi um grupo tentando acender uma fogueira diretamente sobre o solo coberto por liquens. O vento soprava forte, típico de zonas de transição, e a vegetação rasteira estava seca como palha. Eles não estavam apenas ignorando o risco óbvio de incêndio florestal; estavam ignorando a fragilidade extrema daquele ecossistema específico.
O desafio do solo sensível
Zonas de transição são áreas de estresse biológico. As espécies que habitam essas faixas de altitude ou de interface entre biomas são resilientes a variações climáticas, mas extremamente vulneráveis a intervenções externas. Quando alguém decide remover a camada superficial do solo para “limpar” o local de um fogo, o dano é, muitas vezes, permanente. O solo nessas áreas é fino, pobre em nutrientes e demora décadas para recuperar o equilíbrio microbiológico.
Se você estiver em um ambiente onde o fogo é permitido — o que já se tornou uma raridade em parques nacionais bem conservados — o ideal é nunca tocar no chão. Utilize fogareiros de camping, preferencialmente os modelos a gás ou de combustíveis líquidos que possuem bases estáveis. Eles eliminam a necessidade de mover pedras, cavar valas ou queimar matéria orgânica do solo. A cozinha outdoor evoluiu muito, e um bom fogareiro de uma ou duas bocas consegue ferver água para um café ou preparar uma refeição reforçada sem deixar um círculo negro de cinzas que permanecerá ali por anos.
Quando o improviso se torna um problema
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Muitos trilheiros ainda carregam a ideia romântica de que a fogueira é o coração do acampamento. No entanto, em zonas de transição, o material lenhoso disponível costuma ser escasso e fundamental para a decomposição que alimenta o solo. Ao coletar galhos, você está retirando a casa de diversos insetos e a base da ciclagem de nutrientes daquele micro-habitat.
Se, por uma questão de sobrevivência ou emergência, você for forçado a fazer fogo, a ética do impacto mínimo dita que o uso de uma “fogueira de plataforma” é o padrão ouro. Trata-se de construir uma base com areia ou pedras planas, elevando o fogo alguns centímetros do solo, garantindo que o calor não queime as raízes superficiais. Ao terminar, a regra é simples: apagar completamente, dispersar as cinzas frias em uma área ampla — longe de cursos d’água — e devolver as pedras exatamente para a mesma posição original.
A responsabilidade do montanhista consciente
O planejamento de uma expedição deve considerar, antes mesmo da saída, a gestão de resíduos e o impacto térmico. Se o seu roteiro passa por áreas de transição ecológica, o equipamento que você leva é o seu principal aliado. Uma lanterna de cabeça de qualidade e um sistema de iluminação eficiente substituem qualquer necessidade de tochas ou fogueiras para iluminar o acampamento. O conforto térmico deve vir de um bom isolante térmico e um saco de dormir com temperatura de conforto adequada, e não de uma fogueira que consome o oxigênio e o solo ao seu redor.
A proteção desses ambientes não depende apenas de fiscalização, mas da nossa capacidade de entender que, ao entrarmos na montanha, somos apenas visitantes em um sistema que não foi desenhado para suportar o nosso conforto a qualquer custo. Observar a mudança na vegetação enquanto subimos uma trilha é um lembrete constante de que a resiliência da natureza tem limites. Levar um fogareiro compacto e praticar o desapego da fogueira tradicional não é apenas uma medida de segurança contra incêndios, mas um exercício de respeito por um terreno que sobreviveu milênios antes de nossos primeiros passos por lá. A marca do montanhista ideal, ao deixar o acampamento, é a mesma marca que ele encontrou ao chegar: absolutamente nada.